Refugiados e imigrantes deram a cara por uma inclusão mais digna

12 Abril 2025
A sociedade portuguesa está a transformar-se rapidamente em consequência do fenómeno da imigração, sem que o Estado Social consiga assegurar as respostas às necessidades de muitos que, nos últimos anos, têm dado entrada no nosso país e que apresentam vulnerabilidade económica. A Rede Europeia Anti-Pobreza no Algarve convidou o MUROS para colaborar na «Semana da Interculturalidade2025» para o combate à pobreza e exclusão social e ao nosso projeto juntaram-se várias entidades e vozes que deram corpo a uma organização de um dia inteiro a 4 de Abril na Escola Secundária de Vila Real de Santo António. Foram elas a ATREVO, o Agrupamento de Escolas de VRSA e o CFAE Levante Algarvio. A partir do Espaço-escola o objetivo passou por informar e sensibilizar para o fenómeno da migração, partindo das premissas da Interculturalidade e da Inclusão. Não se pretendeu fazer num dia o que poderá levar o tempo de uma Humanidade inteira. Pretendeu-se, sim, mostrar como o medo muitas vezes surge de lugares de legítima estranheza e desconhecimento. E foi visível que o medo e o desconhecido podem transformar, negativamente, a nossa humanidade, sendo pela desconstrução de ideias-feitas e de preconceitos, bem como pela informação verdadeira que passará sempre parte da solução para derrubar os muros erguidos à coesão social.

O Agrupamento de Escolas de Vila Real de Santo António (AEVRSA) tem atualmente cerca de 500 alunos estrangeiros distribuídos por 40 nacionalidades. O desafio "é muito grande", como teve oportunidade de referir o seu diretor Rui Marques, lembrando que "esta diversidade representa um enorme potencial de enriquecimento cultural, mas também desafios no que toca à inclusão e ao sucesso educativo”. Ao acolher esta iniciativa a direção daquele Agrupamento reafirmou o “compromisso com uma escola inclusiva, onde todos os alunos, independentemente da sua origem, tenham igualdade de oportunidades e se sintam parte integrante da comunidade”. Pois “a imigração é um fenómeno central na nossa região, e é fundamental que a escola se posicione como um espaço de reflexão e ação, promovendo o diálogo e a construção de soluções que fortaleçam a integração e a coesão social”. Por seu turno, Celeste Sousa, diretora do CFAE Levante Algarvio [Centro de Formação de Associação de Escolas], cuja intervenção acontece em Vila Real de Santo António, Castro Marim, Alcoutim e Tavira, frisou que "ainda que volátil, resultado de entradas e saídas das famílias migrantes de Portugal, os dados conhecidos apontam para um número aproximado a 1000 alunos" naquela área "o que exige um trabalho sistemático e consolidado com os seus seis Agrupamentos de Escolas, ou seja AEVRSA, AEDJI, AECTM, AE Alcoutim, AEDMI e AEDJAC”. Recorde-se que no Algarve cerca de um quarto da população é estrangeira e as escolas são lugares que refletem a diversidade cultural presente na região.

(Ao centro) Celeste Sousa, diretora do Centro de Formação de Associação de Escolas [CFAE] Levante Algarvio
Rui Marques, diretor do Agrupamento de Escolas de VRSA está empenhado em potenciar a inclusão no ensino
Participantes foram convidados a conhecer a aldeia da Dérdia e os seus derdianos

O evento dedicado à Interculturalidade e Inclusão na escola secundária de Vila Real de Santo António começou pelas 10h30. Na parte da manhã os participantes foram desafiados a conhecerem de uma forma inovadora um lugar distante, imaginado para fazer refletir sobre nós e os outros. A Dérdia é uma aldeia composta por derdianos que precisam da nossa ajuda, mas será que estamos aptos a ajudar como se desejaria? "É a interculturalidade, a nossa curiosidade pelas outras culturas, o nosso respeito pelos outros povos, a nossa tentativa de aproximação a outras origens, a nossa capacidade de partilha, a nossa valorização das diferenças, o nosso desejo de comunicar, interagir e descobrir que permite realçar a diversidade bem como a nossa própria identidade. É este amor à diversidade, é esta cultura de encontro, é este processo de humanização que nos permite relacionar, conhecer a outra margem e a construção de pontes… e as pontes são obras de arte”, resume Nuno Alves, co-fundador da ATREVO - Associação para o Desenvolvimento Pessoal e Comunitário; entidade que levou a cabo esta dinâmica através dos seus membros Rita Beckam, Ana Anica e Vivi Pasteli. Para a ATREVO, numa fase em que vivemos uma guerra em plena Europa, “quanto menor for a nossa capacidade para nos relacionarmos com outras culturas, isto é, quanto menor a nossa capacidade de exercer a nossa interculturalidade, haverá inevitavelmente o risco de haver um aumento da desigualdade social, da discriminação, dos preconceitos, do tamanho dos nossos muros, dos fenómenos de apartheid’s e dos processos de guetificação”. Participaram nesta atividade cerca de 60 pessoas, a maioria alunos do AEVRSA, sendo que o momento de partilha e debate foram bastante ricos. As palavras-chave que resultaram dessa partilha estão nas imagens abaixo, tendo Rita Beckham realçado que "esta foi uma sessão muito especial com participantes a enfrentar os desafios de uma forma muito serena". A equipa da atrevo garantiu que saiu da sessão "com muita alegria e com esperança renovada na humanidade"!

Rita Beckham, da Associação ATREVO, a dinamizar a sesssão «Derdianos» num grupo bastante heterogéneo
Outra parte do grupo da dinâmica «Derdianos» empenhados em encontrar soluções para ajudar o povo da Dérdia
Conferência-Desafio refletiu sobre «O que é preciso contar sobre a história (verdadeira) da imigração?!»

A tarde foi preenchida por uma conferência que teve lugar na sala «Mário Centeno»; por onde passaram vários oradores, desde logo imigrantes e refugiados que na primeira pessoa contaram a sua história de vida. Gaurav, Faizal, Sónia, Alisa, Karinna e Tchissola, apesar da sua situação regularizada, pretenderam partilhar parte as suas histórias e alertar para o facto de que a condição de migrante não pode ser "um passaporte" para juízos de valor negativos nem para perseguições sociais, lamentando algumas condições a que são sujeitos e que consideram que devem ser contadas em jeito de partilha para gerar empatia e não se perpetuarem. "Estar doente e não ser atendido no Serviço Nacional de Saúde porque se é imigrante", como testemunhou Faizal, cidadão paquistanês, casado e pai de dois jovens ou "ser incluída numa turma e exigirem que falasse português, assim, de repente!..", como contou Karinna, jovem ucraniana refugiada em Portugal, são apenas dois exemplos do que foi dito em palco, explicando como a discriminação atropela os direitos humanos, sendo que ficou claro na sessão que é preciso falar sobre as histórias verdadeiras para que em conjunto a comunidade perceba o quão complexo pode ser um processo de inclusão. Tchissola, jovem angolana integra o núcleo de empreendedorismo do AEVRSA e avançou com um projeto, supervisionado pelo professor Luís Neves, com vista a melhorar todo o processo de acolhimento dos imigrantes, desde logo a agilização da sua documentação. Este projeto surge da experiência por que passou juntamente com a família, e o objetivo "é evitar que os imigrantes passem por processos administrativos tão lentos e comprometedores da sua dignidade", contextualiza a jovem de 16 anos que integra o grupo de empreendedorismo com mais três jovens (Portugal, Índia e Brasil). Sónia na ìndia exercia enfermagem. Esta imigrate sonha em aprender o mais possível a língua portuguesa para poder evoluir no sentido de vir uma profissional de saúde em Portugal. Atualmente desempregada, com uma filha de três anos e um marido que trabalha na agricultura, procura trabalho na área da restauração e hotelaria. No AEVRSA os alunos aprendem o idioma português nas aulas diurnas ou noturnas do Curso «Português Língua de Acolhimento» (sobre o qual já fizemos uma reportagem com o seu coordenador Pascal Viegas e a professora Susana da Cruz, e que pode ler aqui) ou nas aulas de Português Língua Não Materna (PLNM). E a aprendizagem da língua tem-se mostrado fundamental para a inclusão destas pessoas. Para Gaurav vir para Portugal foi "continuar a realizar um sonho de conhecer a Europa", tendo iniciado o seu percurso em Espanha. Confessa que está bastante bem integrado e que em nova Deli (Índia) deixou uma família de quem tem saudades. No seu caso, emigrar não teve por bases dificuldades financeiras; "foi mesmo uma opção e uma aventura". Está a trabalhar em supermercado, mas o seu sonho é aprender língua portuguesa "ao máximo para conseguir fazer um curso de eletricidade e voltar a ser eletricista como era na Índia". Se num primeiro instante o sorriso e a disponibilidade destas pessoas para partilhar as suas histórias em palco pode não revelar as lutas constantes de quem engrossa a lista de migrantes em Portugal, escutar mais de perto faz-nos descobrir que é preciso tempo e espaço para conhecer mais e melhor o fenómeno e filtrar a informação que tantas vezes chega de forma enviesada.

Foto de Vivi Pasteli. (Da esq.ª para a d.ta) Gaurav, Faizal, Sónia, Tchissola, Karinna e Alisa são migrantes no território e deixaram vários apelos através da partilha das suas histórias de vida
Facilitar e mediar são papéis essenciais no processo de inclusão

Ana Cristina Gomes e Luís Duarte têm papéis distintos dentro do AEVRSA, sendo que por ambos também passa muito do trabalho de integração dos alunos migrantes. Ana C. é professora há 40 anos e há cinco que está envolvida em atividades não letivas que lhe permitem ensinar a língua portuguesa a imigrantes e refugiados que integram o ensino regular. Não sendo uma tarefa fácil, a empatia desta professora tem as doses certas para conseguir facilitar não apenas na aprendizagem essencial da língua portuguesa, mas também ajudar ao trabalho precioso de inclusão e integração. Do seu lado, lamenta a falta de professores para ensinar Português Língua Não Materna (PLNM) e confessa que não tem mãos a medir para fazer face ao fluxo de jovens estrangeiros e de culturas bem distintas da portuguesa que chegam todos os dias ao AEVRSA. "E a verdadeira inclusão passa por promovermos momentos de partilha cultural, como um passeio ou uma ida ao cinema. Esta experiência, que para muitos é a primeira vez, permite não só ver um filme dobrado em língua portuguesa e aprender um pouco mais o idioma num contexto diferente da escola, bem como permite viver a real multiculturalidade e a mistura de tantos jovens de origens distintas como aquelas que temos no nosso agrupamento".

A professora Ana Cristina Gomes e o mediador linguístico Luís Duarte não têm mãos a medir no trabalho de integração dos alunos estrangeiros

Luís Duarte é mediador linguístico e ocupa, assim, um lugar novo e que surge da legislação mais recente que previu que os agrupamentos de escola tenham um «pivot» que faça uma mediação entre alunos, professores, funcionários e famílias. O trabalho que desenvolve não prima nem pela rotina nem pelo lugar certo num agrupamento com duas escolas geograficamente separadas por cerca de 15 quilómetros (Vila Real de Santo António e Vila Nova de Cacela). A sua especialização na área da integração e inclusão, obtida na Dinamarca, está a valer-lhe quer no propósito de mediar quer no método desenhado. Elogia o facto de as novas metodologias em Portugal fazerem antes de qualquer outra intervenção uma avaliação do grau de conhecimento da língua portuguesa que os alunos migrantes têm, sendo mediante esse conhecimento que os alunos são encaminhados da melhor forma; ou seja "não são, como até aqui, integrados numa turma a aprender história, matemática ou outra disciplina qualquer e dominarem, minimamente, a língua portuguesa". Significa isto que "se for aferido  que o aluno ou aluna tem o grau zero da língua, colocamo-lo a aprender português e vamos monitorizando para só mais à frente poder ir integrando no seu percurso uma outra disciplina que lhe seja mais acessível frequentar e depois integrar em segurança uma turma". Estas novas metodologias contrastam e muito com aquilo que era feito até aqui, mas "a aprendizagem da língua é um dos fatores mais importantes para a integração e temos de ser bem sucedidos nisso sob pena de comprometermos toda a inclusão", frisou o mediador ao serviço do AEVRSA.

CLAIM de VRSA lamentam atrasos da AIMA e assumem limitações

Um dos painéis contou com a presença do Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM), inserido por protocolo na Câmara Municipal de Vila Real de Santo António. Vítor Martins e Ana Sofia Rosa estiveram na qualidade de técnicos afetos ao CLAIM e não esconderam as dificuldades em dar seguimento ao "cada vez maior número de pedidos". Lamentaram que muitas das respostas do CLAIM não sejam satisfatórias para os migrantes que os contactam, "pois dependem de seguimentos que têm de ser dados pela AIMA [Agência para a Integração, Migrações e Asilo] e os atrasos a esse nível são muitos e publicamente conhecidos". Os técnicos aproveitaram a oportunidade para alertar para o risco do aumento de migrantes sem-abrigo no concelho. "Já tivemos uma família inteira de imigrantes a viver na rua, conseguimos dar resposta, mas não foi um processo simples, pelo contrário", contou Ana Sofia Rosa que está afeta ao Núcleo de Planeamento e Intervenção dos Sem-Abrigo e que encarou diversos muros da sociedade para encontrar quem quisesse alugar a casa à familia em causa. Entretanto, "a família em questão está condignamente alojada", atualizou a técnica. Vítor Martins, recordou que o serviço do CLAIM "é sobretudo administrativo, mas o facto de se estar a trabalhar dentro de uma câmara municipal permite ter um contacto direto com vários serviços e entidades", ressalvando que essa "rede tem sido um auxílio fundamental para serem dadas respostas aos vários níveis". Quanto a números mais atuais, de Janeiro a Março foram feitos 145 atendimentos no CLAIM de VRSA. A maioria dos utentes é do sexo masculino (cerca de 70%). "Relativamente aos Apoios Sociais juntam-se as pessoas sem abrigo o que reflete um valor de 7%". Segundo estes profissionais na área de integração e asilo de migrantes, quanto a nacionalidades dos migrantes que recorrem ao CLAIM de Vila Real de Santo António, no topo estão cidadãos do Nepal, seguidos do Brasil, Bangladesh e Índia. Já no que diz respeito aos assuntos mais relevantes, a maioria são relacionados com a permanência no território nacional, seguido do reagrupamento familiar.

Vítor Martins e Ana Sofia Rosa, do CLAIM de VRSA, já atenderam este ano mais de 145 migrantes. Os homens em maior número e a permanência no território nacional como tema principal
Do Alentejo e da Andaluzia tivemos dois exemplos de boas práticas para o auxílio aos migrantes
(Da esq.ª para a d.ta) María del Carmen Villalba Aleñá, professora primária da Junta da Andaluzia, e Madalena Palma, diretora da Associação ESTAR (Beja) trouxeram dois casos de boas práticas no que coesão e emergência social diz respeito

May Villalba, professora primária da Junta da Andaluzia, e mestre em Resolução de Conflitos e Mediação, trouxe-nos a realidade espanhola que convive com "os mesmos problemas de inclusão, apesar da origem da migração ser em parte diferente de Portugal", frisando a "necessidade efetiva de trabalhar em rede para resolver conflitos sociais". As aulas de interculturalidade que ministra a crianças entre os 7 e os 12 anos em cinco escolas, entre Ayamonte e Isla Cristina (província de Huelva) são "mais do que ensinar o castelhano. Servem para partilharmos culturas, a nossa e as de quem chega, onde se ganha a noção clara que a aprendizagem da língua é uma ferramenta fundamental para a verdadeira inclusão no país de destino". Segundo esta professora espanhola, "deveria haver mais tempo para estas aulas" para que os resultados sejam mais expressivos e efetivos no sentido da inclusão segura. Existem vários casos de sucesso que May Villalba tem tido "o privilégio de acompanhar", mas alerta que é preciso fazer algo mais, nomeadamente junto dos migrantes adultos a quem não é exigido que frequentem aulas de castelhano, ao contrário do que acontece do lado português. "Um dos problemas é a falta de integração dos pais das crianças, nomeadamente das mães que não aprendem a língua e que sendo, na maioria das vezes, o maior alicerce das crianças acabam por não conseguir ajudar com os trabalhos de casa nem a promover a socialização no seio da comunidade". A professora lembrou que "a família, como em todos os aspetos da vida, é fundamental para o melhor desenvolvimento das crianças. Tudo o que falhar em casa vai falhar na escola..." É de referir que May Villalba trabalhou sempre no âmbito da educação e que ao longo dos anos se foi especializando no serviço com pessoas desfavorecidas ou com problemas de integração social. Recorde-se que na província de Huelva o cultivo de frutos vermelhos é lugar de acolhimento para muitos migrantes, nomeadamente do norte de África.

Vinda de Beja, Madalena Palma, diretora da Associação ESTAR não deixou ninguém indiferente, pelo contrário, quando contou sobre a história da Associação que decidiu criar há seis anos com a sua colega de missão Inês Féria. É um trabalho sem horário nem folgas, pois a emergência social não tem hora marcada. O que isso significa de exigência para quem está empenhado em auxiliar quem mais precisa é inimaginável, mas Madalena Palma conseguiu ser bem clara quando contou que os casos que lhes chegam "são de uma dureza extrema", referindo-se, nomeadamente, "aos imigrantes que chegam em condições limite e «em carne viva» a precisar de uma intervenção imediata". A ESTAR está sempre disponível para ajudar e a partir dali para criar uma resposta em rede com a comunidade onde se insere. Tem sido "um alicerce de apoio para centenas de famílias e tem impactado diretamente mais de 3 mil vidas. Cada gesto, cada ação, cada apoio prestado reflete o nosso compromisso inabalável em melhorar as condições de vida das pessoas em situação de vulnerabilidade". Na conferência do passado dia 4 de Abril, Madalena Palma assumiu que também o percurso de emergência social é, por vezes vítima da desinformação que tenta descridibilizar todo o trabalho feito. "Por ajudarmos imigrantes já fomos acusados de apoio à imigração ilegal", contou-nos esta responsável que garante que está com a sua equipa "bastante focada em ajudar quem mais precisa". Para além da "simples ajuda material, a ESTAR oferece um apoio abrangente e humanizado que inclui alimentos, mobiliário, artigos de puericultura, ajudas técnicas, medicação, e produtos de higiene pessoal, entre muitos outros bens essenciais para aqueles que mais precisam". Cientes de que "para transformar vidas, não basta apenas suprir necessidades, é preciso criar oportunidades", a ESTAR apoia "na integração no mercado de trabalho, com um olhar atento para as necessidades tanto da população nacional quanto da comunidade imigrante – muitos dos quais resgatados de situações de imigração ilegal". De recordar que a ESTAR já foi premiada com dois importantes galardões, o Prémio Sustentabilidade pelo Grupo Pestana e o Prémio CA Sustentável da Caixa de Crédito Agrícola, como reconhecimento da sua atuação social. Com o Estatuto de Utilidade Pública, a ESTAR assinou este ano primeiro Acordo de Cooperação com o Centro Distrital de Segurança Social de Beja, para a criação da Equipa de Rua. Esta equipa, composta por profissionais multidisciplinares (4 Assistentes Sociais, 1 Psicóloga, e 2 Monitores), atua 24 horas por dia, 7 dias por semana, oferecendo auxílio essencial a pessoas em situação de sem-abrigo e outros grupos vulneráveis, desde apoio alimentar, roupa, apoio psicológico e social e promoção da a inserção social e laboral. Em Vila Real de Santo António, Madalena Palma assumiu perante o auditório que a sua equipa está "disponível para partilhar com outras entidades a metodologia da ESTAR", pois considera essencial escalar "este tipo de atividades ao serviço de quem mais necessita".

«Os migrantes são criminosos e estão a roubar-nos o emprego». Afinal como se identifica a desinformação?
Olivia Novoa Férnandez, docente da UALG e especialista em literacia mediática lembrou que a desinformação é difundida por pessoas da nossa confiança e que pensam estar a passar uma informação verdadeira

Olivia Novoa Férnandez, doutorada em Comunicação, Cultura e Artes na especialidade Ciências da Comunicação pela Universidade do Algarve, foi oradora nesta conferência para alertar para a importância da literacia mediática e para os perigos da desinformação quando o tema é imigração. A especialista lembrou que a desinformação é uma "informação falsa ou enganosa que se difunde de maneira intencionada para enganar e tentar manipular as crenças, emoções e opiniões do público em geral". E o pior é que muitas das vezes esta informação é difundida por pessoas da nossa confiança e que pensam estar a passar uma informação verdadeira. O facto é que a crescente desinformação tem pesadas consequências, "comprometendo a tomada de decisões, gerando desconfiança nas instituições, enfraquecendo a democracia; o que leva a uma inevitável fragmentação social e a polarização", tal como enunciou Olivia N. Férnandez. No que diz respeito "às narrativas preconceituosas acerca dos migrantes", a especialista não teve dúvidas em contar que vão desde dizer-se que "são criminosos ou terroristas, roubam empregos, apropriam-se de ajudas públicas e que têm falta de interesse em integrar-se nas sociedades de acolhimento". A professora da Universidade do Algarve deixou algumas pistas para que cada cidadão possa ser ativo no combate à desinformação. "Entre elas, e em relação às notícias que consumimos, prestarmos atenção à procedência e fontes, autoria, data, ao tom da notícia, conseguirmos perceber as evidências (ou a falta delas), os vieses informativos e temos de tentar sempre aprofundar a informação", rematou.

Atrasos burocráticos e a crise da habitação em destaque no debate

Do debate surgiram vários alertas, desde logo da parte de empresários que reconheceram estar a recorrer a uma mão-de-obra estrangeira cada vez maior e a conviver com os dramas de muitas pessoas que estão a tentar refazer a sua vida em Portugal, mas com inúmeras dificuldades, no que diz respeito à habitação. Os atrasos na regularização da documentação foi enunciada e o alerta dado no sentido de dignificar os trabalhadores que já descontam em Portugal. Os apelos foram vários, nomeadamente para que a AIMA, que também esteve presente, possa acelerar e desobstaculizar os processos de regularização.

No debate, Carlos Viegas, empresário local e representante da AHETA na conferência falou sobre os dramas que os migrantes vivem, nomeadamente, ao nível da habitação
Ana Teixeira do IEFP de VRSA frisou que há muitos imigrantes que não estão a conseguir arranjar trabalho por não dominarem a língua portuguesa, alertando para os riscos do crescimento da pobreza e exclusão social
"A inclusão das comunidades de imigrantes é um dos maiores desafios do nosso regime democrático"

O final da sessão contou a participação do investigador José Carlos Mota, do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro, que com a sua enorme experiência, nomeadamente, na ativação comunitária e na inovação social, teve o importante contributo de elucidar e incentivar sobre a possibilidade de ser criada uma rede informal para a inclusão de imigrantes nos territórios. Em direto de Aveiro, este especialista recorda que, “a inclusão das comunidades de imigrantes é um dos maiores desafios do nosso regime democrático, especialmente nas regiões onde a população estrangeira tem crescido significativamente”. José Carlos Mota, referiu que em municípios como Vila do Bispo, Odemira, Albufeira e Lagos, os residentes estrangeiros já representam mais de 40% da população, enquanto na região da Grande Lisboa são quase 20%.

Fazendo um ponto à realidade, José Carlos Mota, sublinha que “a inclusão de imigrantes não acontece por geração espontânea. Exige liderança pública ativa, especialmente por parte do poder local, bem como novos mecanismos de colaboração. As boas práticas existentes devem ser mapeadas, divulgadas e replicadas." É fundamental que os imigrantes sejam protagonistas da sua própria integração, em vez de meros beneficiários de políticas públicas”, disse o investigador que lembrou que não é preciso inventar a roda, pois esta já existe e tem de ser colocada em utilização. José Carlos Mota lembrou que “em Portugal e, em particular, no Algarve, há já experiência consolidada nesta matéria, sendo que as escolas, os clubes, as coletividades e o poder local desempenham um papel fundamental na promoção da inclusão e na redução das barreiras do preconceito e da desconfiança”.

O especialista em Participação Cívica, José Carlos Mota, salientou que é "fundamental que os imigrantes sejam protagonistas da sua própria integração, em vez de meros beneficiários de políticas públicas”

No final da sessão, o diretor do AEVRSA mostrou-se empenhado em dar corpo a partir da instituição que dirige a uma rede informal para a inclusão de migrantes, lembrando que "o poder está em todos nós e não apenas no poder político", apelando à ativação da sociedade civil nesta missão que não poderia estar mais na ordem do dia.

Convívio Multicultural contou com centenas de pessoas dos vários países

O final deste intenso dia contou com um convívio multicultural ao qual afluíram dezenas de alunos. Primeiramente assistiram a um espetáculo de artes executado por alunos do AEVRSA e onde o canto, a dança e a poesia tiveram um destaque principal. As mesas para o jantar compuseram-se de inúmeras iguarias nacionais e internacionais onde as bandeiras dos vários países lembraram o sabor da interculturalidade. De referir que muitos foram os alunos, entre eles muitos imigrantes, que ao longo de vários dias executaram materiais decorativos, nomeadamente, na confeção de flores de papel, para este dia se tornar mais belo. E conseguiram!

Jovens declamaram poesia

 

Outros jovens formaram bandas
O canto deslumbrou também no convívio multicultural
E o grupo de Hip Hop da Academia de Dança Splash abriu a sessão ao final do dia
Foto: Ruben Silva. O convívio feito à volta da mesa mais multicultural e inclusiva possível!

 

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