Muros Transfronteiriços de Barrancos falam da não-fronteira e são mote de obra vencedora

03 Fevereiro 2025

A vila portuguesa de Barrancos, no Baixo Alentejo, no limite com Encinasola (província de Huelva, Espanha), viu nascer uma Casa Mortuária que foi desenhada pela «Mesa Atelier» - uma empresa de arquitetura sedeada em Lisboa, mas que é composta por três jovens com raízes que atravessam o país inteiro: Algarve, Alentejo e Douro. Equipa talentosa, por sinal, já que depois de ganharem esta obra promovida em concurso público pelo muncípio barranquenho (e à qual concorreram 91 propostas) conseguiram obter com a mesma obra o primeiro lugar na 4ª Edição do Prémio «Concreta UNDER 40». Ana Isabel Santos, João Varela e Paulo Dias ousaram impregnar a sua arte e a sua filosofia empresarial num edifício público com todo o valor simbólico que neste caso nos é fácil imaginar. Desde logo, em destaque foi levado a cabo um estudo aprofundado do território raiano e respeito pelas suas idiossincrasias e recurso aos materiais locais.

A inclusão é palavra-mestra numa construção feita com base na sustentabilidade e na economia dos recursos. Para diminuir a pegada carbónica esta equipa de arquitetos fez um exaustivo levantamento sobre as técnicas construtivas locais e recorreu ao conhecimento que sabe sobre a exímia aplicação do xisto, por exemplo, mas também sobre a importância que a cal, o ferro e a madeira adquiriram naqueles lugares ao longo do tempo. "Há uma preocupação em que este seja um local em que todos se sintam incluídos, independentemente das suas crenças, religiões origens ou convições". Ana Isabel Santos é algarvia com raízes familiares numa das zonas mais interiorizadas do território - Vaqueiros, concelho raiano de Alcoutim. Sabe bem sobre o despovoamento e sobre a desertificação. Mas também sabe sobre o que é a raia e a múltipas opções que essa interculturalidade representa. "E a economia de recursos também está intimamente ligada à sustentabilidade e à inclusão".

João Varela, Paulo Dias e Ana Isabel Santos na Casa Mortuária de Barrancos

Confessam  que "não foi simples sensibilizar" para a utilização de uma pedra local como o xisto porque por vezes também a matéria está ligada ao que não é palpável. Neste caso, "o xisto, de algum modo, lembra outros tempos; os da fome e da pobreza". Mas a perspetiva de Ana e seus colegas não foi um ponto de fuga para «o mundo novo», senão antes um reencontro com as pessoas daquele lugar, as suas tradições, seus saberes e a perpetuação de uma cultura em constante evolução e que com o tempo não se deve perder, mas sim  misturar com as exigências, segurança e conforto da nossa contemporaneidade. Ao escutarmos a entrevista com Ana Isabel S. fazemos uma viagem por um tópico específico, mas que nos dá horizonte para olharmos além das evidências, dos números e das aparentes fatalidades. Como é que a construção de um novo edifício congrega a capacidade de refletirmos sobre o sustentável, o belo, a inclusão e a necessidade de acrescentar algo no caminho. Lembrar as terras que afinal estão unidas e têm escala numa eurorregião que sempre existiu de forma natural e no seio de uma comunidade que sempre se interligou. Esta conversa sublinha que não devemos olhar apenas dentro de limites de fronteira, mas sim para continuidade que dá escala e que pode ser lugar de múltiplas oportunidades de crescimento. Aliás, foram os muros transfronteiriços de xisto que ali existem, e que ligam com diversas finalidades Portugal e Espanha, que deram mote à obra vencedora que ergueu a nova Casa Mortuária de Barrancos. É quase uma revelação de como às vezes as não-fronteiras se insinuam de forma tão consistente e vincada para que possamos retirar delas as lições devidas sobre "o pensar local para agir global", como bem nos lembra Ana Isabel Santos.

Imagem de maquete da «Casa Mortuária de Barrancos». Arquitetura inspirada pela arquitetura e materiais locais
O topo da «Casa Mortuária de Barrancos».
João Varela, Ana Isabel Santos e Paulo Dias

Se gosta de arquitetura esta será uma entrevista imperdível. Mas também o será caso goste de temas como a governança, a sustentabilidade, a inclusão, o desenvolvimento local, as tradições, o património e sobre o que nos liga; às vezes de forma tão subtil.

[Mais detalhes sobre o projeto arquitetónico no site da MESA ATELIER aqui].

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