Sem ligação ferroviária a Sevilha a Eurorregião AAA estará sempre comprometida (com vídeo)

20 Setembro 2025
Luís Serra Coelho é economista, professor catedrático e o atual diretor da faculdade de Economia da Universidade do Algarve. Foi o nosso convidado para uma entrevista que realizámos em palco, a 19 de Setembro, em Loulé, no âmbito da FAVA: Feira do Ambiente e Vegan do Algarve. Desafiámos este responsável para dar um panorama da economia algarvia, bem como um retrato da mesma, mas no contexto da Eurorregião Alentejo, Algarve e Andaluzia.
O economista recordou que o Algarve é refém de uma enorme dificuldade relacionada com a dependência absoluta da monocultura de um turismo de sol e praia, e lembrou que atualmente, cerca de 60% da restauração, alojamento, transportes, comércio e da atividade imobiliária está ao serviço desta monocultura. Luís Serra Coelho lançou inúmeras pistas sobre como podemos contornar esta realidade, sublinhando a importância do papel da inovação tecnológica, nomeadamente, ao serviço de uma agricultura que se deseja sustentável ao nível ambiental bem como viável economicamente. Ou seja uma agricultura onde é preciso "colocar a tecnologia certa, pensando nas espécies certas e usar de forma razoável os recursos que temos, tendo em conta o problema crítico que é a escassez da água que é comum tanto ao Alentejo como à Andaluzia". Mas também referiu que é importante virarmo-nos para produtos turísticos diferenciados ligados à valorização da biodiversidade, à ornitologia, à promoção turística de parques naturais e património arqueológico, por exemplo. "Vivemos num  paradoxo: temos uma região espetacular, com excelentes condições naturais únicas temos ainda alguma paz social, mas do ponto de vista do que são as condições infraestruturais para dessas tirarmos o partido certo há muito por fazer: desde logo a questão dos transportes, da habitação, a diversificação da base económica". As lacunas a este nível "geram uma grilheta que faz com que a economia do Algarve não se desenvolva como poderia desenvolver", realçou. Do ponto de vista prático denuncia que "há muito para fazer", acrescentando que não acredita que "com a governança que temos na região a gente vá resolver os nossos problemas". O economista aponta que "mantendo as 16 câmaras no Algarve sem termos uma região que tenha ela própria capacidade de decisão e orçamento será muitíssimo difícil resolver os problemas estruturais e estruturantes da nossa região; porque o incentivo que qualquer presidente de câmara tem é resolver o problema doss seus eleitores", tendo, assim, "uma visão espartilhada da realidade", o que impossibilita "um pensamento mais holístico e que permita posicionar o Algarve noutro patamar de competitividade". Na sua leitura económica do Algarve, Luís Serra Coelho "estaria disponível em trocar as 16 câmaras por duas ou três, acabar com a generalidade das freguesias", mas ganhar "uma região que tivesse capacidade de eleger bem os seus representantes" e "uma capacidade de ter orçamento e plano de desenvolvimento para a região que fosse independente do governo central".  Acredita que "se conseguíssemos fazer isso no espaço de uma geração o Algarve seria completamente diferente nas matérias centrais: mobilidade, condições de acesso à habitação e diversificação da base económica". E sublinha que "qualquer outra coisa que não seja esta" tem "dificuldade em perceber como é que resolve os nossos problemas". No que toca à`capacidade em darmos o salto até 2030, entre outros diagnósticos, Luís Serra Coelho alerta que "a falta de pessoas e de agentes económicos compromete não só a mais especializada execução de fundos públicos, bem como a sua utilização total. É um sinal de preocupação. Os fluxos turísticos que não são controláveis farão da economia algarvia refém ao nível económica, havendo um grau de preocupação grande face às tensões sociais, geopolíticas e económicas que enfrentamos na Europa", rematando com o alerta de que "é preciso ter em atenção que o quadro se está a complicar".
Eurorregião estará sempre comprometida sem ligação ferroviária até Sevilha
O nosso projeto MUROS está no terreno para em conjunto Imaginar uma Eurorregião Alentejo, Algarve e Andaluzia com potencialidade e horizonte de futuro. Encaramos os muros que existem quando falamos nesta capacidade de união para de uma forma real  as pontes que e são precisas fazer. No caso, o economista e professor Luís Serra Coelho afirma que "não temos ligação ferroviária a Espanha e a partir daí  tudo está comprometido". Sendo um entusiasta do potencial que a Eurorregião Alentejo, Algarve e Andaluzia tem enquanto lugar de escala económica, social, ambiental e humana, o economista não tem dúvidas em afirmar que a este nível por fazer "está tudo". Mesmo ao nível do intercâmbio entre universidades não atrai muitos alunos nem acrescenta grande valor, assume. Ou seja, a questão ferroviáriaria que ligue as três regiões e os dois países é essencial para se avançar ao nível da materialização efetiva de um espaço económico, social, humano da eurorregião. Ao nível económico, "é importante que a visão da Eurorregião potencie a atratividade do Algarve para o mercado turístico espanhol, mas também que potencie a ligação das nossas empresas para o mercado espanhol". Para tal acontecer, "já devíamos ter o comboio a andar porque é evidente para toda a gente que isso é interessante. Agora enquanto tivermos o modelo de decisão centralizado em Lisboa o Algarve vai ficar sempre para último", criticou.
Desafiámos Luís Serra Coelho a imaginar o potencial da eurorregião a partir de duas medidas avulsas. Uma na área cultural e outra na área social. Primeiramente, questionámos este economista sobre se faria ou não sentido colocar iniciativas como as capitais europeias da cultura ao serviço do fortalecimento da figura da Eurorregião e a sua resposta não poderia ser mais contundente. "Tendo em conta literatura académica que existe sobre o tema, e no que diz respeito ao impacto deste tipo de eventos culturais na dinâmica económica, parece ser unânime que quanto mais oferta tu dá em capitais europeias de cultura maior é o impacto sobre os territórios". Significa que quanto maior e mais diverso for o território maior atratividade teria e maior impacto económico teria. Sem esquecer o fortalecimento que daria ao espaço da eurorregião.
Já no que diz respeito ao fenómeno da imigração quisemos percerber se também este poderia ser alvo de um trabalho social e político conjunto, tendo em conta que existe um corredor Alentejo, Algarve e Andaluzia que muitos imigrantes conhecem e percorrem, transformando as problemáticas muito semelhantes.  Quisemos saber se a este nível deveria haver maior sabedoria das três regiões e dos dois países para lidarem em conjunto com o fenómeno, nomeadamente através de partilha de boas práticas, constituição de redes ao nível social, económico e político para soluções que salvaguardassem os interesses das comunidades e o respeito pelos direitos humanos das comunidades migrantes aqui instaladas. No fundo, ativar a Eurorregião como espaço alargado e mais robusto para acolher de forma exemplar a imigração e revertê-la num ativo económico que acrescente valor a todos os níveis ao território. Em resposta à nossa indagação, o economista, primeiramente, contextualizou, lembrando que "a economia portuguesa não seria capaz de resistir sem imigração", frisando que "os dados são absolutamente claros porque do ponto de vista  do que é a dinâmca do mercado de trabalho, nós temos um conjunto de tarefas que se não fosse a imigração não eram feitas. Quando olhamos para a realidade da economia algarvia isso está aos olhos de todos. Há um conjunto de emprego que só é satisfeito porque temos imigrantes". Continuou, afirmando que "a imigração é necessária, embora seja claro na necessidade de haver uma imigração regulada e de acordo com os parâmetros que Portugal acha que devem ser cumpridos". Já "no que toca ao tema do acolhimento existe muito para fazer porque não cuidamos de as integrar [as comunidades migrantes] no nosso projeto social", defendenfo que "é interessante e seria sempre dejável que houvesse uma partilha de informação e boas práticas que permitisse à eurorregião atrair as pessoas que lhe interessam para dar um contributo positivo para a nossa economia e para a nossa sociedade. Com políticas sérias, transparentes e coordenadas no plano multiregional", rematou, afirmando que "com uma visão integrada da realidade podemos ser mais capazes de integrar melhor e dar maior contributo para o nosso perfil económico e para a nossa sociedade".
*A leitura deste artigo não dispensa a visualização da entrevista na íntegra! Uma entrevista gravada e transmitida em direto pela  associação «Algarve ao Vivo», a partir do Palco Roxo da FAVA: Feira do Ambiente e Vegan do Algarve, organizada pela associação Benfazer e que teve lugar entre os dias 19 e 21 de Setembro, no Parque Municipal de Loulé.

 

 

 

 

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