Estaremos a encarar o peso do «Estigma da Pobreza» como deveríamos?

06 Outubro 2024
Será que o que divide as pessoas que se encontram em situação de pobreza e as outras é apenas um défice material que até pode ser quantificado socialmente? Por exemplo, estar em risco de pobreza em Portugal é auferir menos de cerca de 550 euros mensais. Mas também é não ter habitação digna, nem acesso à saúde nem à educação. Contudo, é também não ter direito a sonhar. Estará, devidamente, medido o peso que o «Estigma da Pobreza» tem na perpetuação da pobreza ao longo de gerações em determinadas famílias? Que marcas (visíveis e invisíveis) têm as pessoas que estão pobres? E porque sentem que nunca vão ter direito a não ser pobres; que nunca vão, nem os seus, recuperar do carimbo de pobre? E quem coloca esse carimbo e o reforça? Com que direito? Como podemos encarar o muro do «Estigma da Pobreza» e derrubá-lo? Poderá ser um começo olhar para este conceito e tentarmo-nos focar no seu poder social perverso.
Atentos a este muro e empenhados em colaborar para derrubá-lo, o nosso projeto «MUROS: Imaginamos a Eurorregião Alentejo, Algarve e Andaluzia» juntou-se ao núcleo distrital de Faro da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN), à Associação para o Desenvolvimento Pessoal e Comunitário «ATREVO» e à «Mandacaru», Cooperativa de Intervenção social e cultural para criar uma sessão dinâmica que pretende, desde logo, auscultar a comunidade sobre o tema, sendo certo que na sua heterogeneidade uns participantes vão sentir que fazem parte do lado dos estigmatizados e outros do lado dos estigmatizantes. Desde logo, esta cisão evidente servirá como ponto de partida para um «quebra-gelo» que levará à reflexão e será através de uma variedade de dinâmicas/jogos que os dois lados se vão misturar e demonstrar como é preciso (e, desejavelmente, possível) anular essa divisão para que "todos que fazemos parte do problema imaginemos em conjunto as soluções; através de uma escuta atenta e ativa e de uma filosofia de base comunitária".
Ação-Piloto gratuita e aberta ao público em geral
«Pobreza. Nós!» vai acontecer no próximo dia 21 de Outubro entre as 17h30 e as 20h30 na Universidade do Algarve - Escola Superior de Ecucação e Comunicação, na sala 105 e está aberta à participação do público em geral. Uma vez que tem acesso gratuito e com lotação limitada, as inscrições podem ser feitas até ao dia 14 de Outubro aqui.
Mudança de paradigma, tomada de consciência, convição e saída da zona de conforto são passos necessários
Segundo Dionísia Pedro, responsável no Núcleo Distrital do Algarve da EAPN, "precisamos de mudar de paradigma, o que implica, no nosso entender, o reconhecimento da pobreza como um fenómeno estrutural e multidimensional, exigindo, por isso, intervenções transversais e integradas tanto dos poderes públicos, como de toda a sociedade, incluindo as próprias pessoas em situação de pobreza e exclusão".
Sofia Vargues, membro da ATREVO, corrobora e frisa que a pobreza envolve várias dimensões e manifesta-se de inúmeras formas. Para esta associaçãoé importante "renovar o compromiso da tomada de consciência de cada um de nós, no meio que nos rodeia, posicionando-nos face a um mundo que queremos ver mais justo, empático e humanizado". Por seu turno, Laure De Witte, da Mandacaru lembra que "a pobreza é política. A pobreza é sistémica. A pobreza é estrutural. A pobreza é uma questão de injustiça. A pobreza não é uma questão de resilência. Não pode haver paz com pobreza. A pobreza é reversível.”

Mas "estaremos, na realidade, preparados para uma sociedade sem pobreza; se isso significa abolir um estigma que tem sido tão prevalente e tão arrasador e que muitas vezes existe em nós de forma inconsciente!?", questiona Susana Helena de Sousa, diretora da publicação periódica «MUROS». A organização está convicta que é preciso fazer algo com o foco intenso no estigma que existe sobre as pessoas em condição de pobreza, considerando que é possível criar uma consciência coletiva diferente. "Nas escolas, nas instituições e nas comunidades tem de haver uma maior empatia para a diferença e para a equidade. E essa consciência tem de passar das palavras aos atos. Contudo, para isso é preciso sair da nossa zona de conforto e, muitas vezes, enfrentar o medo pelo desconhecido", defende Susana H. de Sousa.

Algarve: uma «região rica» com a taxa de pobreza acima da média nacional

De acordo com os dados do Plano de Desenvolvimento Social do Algarve [PDSA], apresentado no Teatro das Figuras, em Faro, a 11 de Dezembro de 2023, “o Algarve é a região do continente que apresenta a mais elevada taxa de privação material e o maior risco de pobreza após as transferências sociais (18,6%)”. Um risco de pobreza que atinge, sobretudo, famílias monoparentais e famílias com três e mais crianças, o que faz das crianças residentes na região um grupo particularmente vulnerável. A região tem cerca de 11 mil crianças e jovens em risco de pobreza extrema, sendo que a população residente em risco de pobreza apresenta valores superiores à média do país. No Algarve são 24,5%, muito acima do valor nacional de 19,4%. Mas onde estão estas pessoas em pobreza extrema que durante o tempo estival ninguém parece [querer] dar por elas? Muitas estão a trabalhar [algumas ainda sem idade permitida por lei] doze ou mais horas por dia, acumulando empregos precários. Pode ler mais sobre estes dados aqui.

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