

Ao longo de três horas tivemos oportunidade de partilhar sobre quando, nas nossas circunstâncias, nos sentimos estigmatizados e quando estigmatizamos. Um novelo enredou as histórias de cada um, ao mesmo tempo que ao ser desenrolado esse pedaço de lã tornava mais claro que o estigma, seja ele qual for, muitas das vezes surge dos medos, das crenças e que vive em nós com um poder sobre o qual muitas vezes não temos nem controlo nem consciência. Contudo, é sempre através liberdade para pensar interiormente ou em voz alta que conseguimos deslindar os bloqueios que nos afastam do outro. Foi o que nos permitiu sentir e apreender a dinâmica levada a cabo por Nuno Alves, da associação Atrevo.




O testemunho na primeira pessoa de quem passou por situações extremas e pelo estigma de pobreza marcou um ponto determinante na sessão; pelo realismo em que se consubstanciou e a generosidade de quem partilha por amor. Honramos a possibilidade de ter tido o papel de facilitar essa conversa especial, mas tão especial com a Cristina Silva. Permitiu-nos, na verdade, criar pontes com a «Biblioteca Humana» presente. Um dos tópicos da nossa conversa levou-nos pela necessidade premente das equipas multidisciplinares que estão no terreno serem compostas por pessoas que conhecem na pele os problemas sobre os quais é preciso intervir. Nada é mais poderoso do que o poder da identificação. E já agora de um abraço. Palavras por outras palavras ditas na sessão pela nossa convidada. Mais do lá foi dito lá ficou. É uma das regras da biblioteca humana. É preciso haver mais bibliotecas humanas, sem dúvida. Ler «olhos nos olhos», apurando os sentidos que nos tornam mais humanos.


Porque a psicologia social explica o fenómeno do estigma, o psicólogo e investigador Nuno Almeida ensinou-nos a consciencializar mais sobre a forma como aquele se pode manifestar em nós, nos outros, individualmente e nas instituições. Bem como nos deu importantes pistas para conseguirmos ver o «essencial» que tantas vezes «é invisível aos olhos».
Laure de Witte, da Cooperativa Mandacaru, mostrou-nos a «Pirâmide do Ódio» e explicou-nos como tudo começa e como se adensa num topo de crime social. Ajudou-nos a ver um percurso que vai desde os estereótipos, passando pelos preconceitos, discriminações, violências e até crimes em massa no topo de uma pirâmide que desejaríamos que não existisse em plenas nas democracias contemporâneas.


Dionísia Pedro fechou a sessão com excertos da declaração da EAPN Portugal cujo título é: «A LUTA CONTRA A POBREZA É UMA ESCOLHA POLÍTICA!» e onde se pode ler que " (...) O combate à pobreza e à exclusão social deve ser entendido como um combate coletivo, um desafio de cidadania e exige intervenções territorializadas que promovam a coesão social e territorial. O local tem especificidades e conhecimentos que devem ser valorizados na definição de estratégias e medidas de combate à pobreza (...)".


Contámos com o apoio da UALG que nos cedeu uma sala onde estiveram mais de 30 pessoas num círculo em que a heterogeneidade marcou presença e mostrou que é possível promover diálogos que queremos que um dia se transformem em ações onde todos temos a nossa quota-parte de responsabilidade. Foi fundamental a presença de todas as pessoas interessadas em trabalhar o estigma da pobreza nas suas vidas e nas vidas de quem as rodeiam. Para além de especialistas na área, responsáveis regionais, técnicos sociais, estudantes de Educação Social, voluntários em organizações e docentes, contámos com a participação de cidadãs do Conselho Local de Cidadãos da EAPN Faro neste que foi um final de tarde diferente de todos os outros.
É de referir que esta ação contou com o contributo das alunas finalistas do curso de Educação Social Joana Miguel e Tatiana Narciso, que de uma forma dinâmica nos lançaram a atenção sobre o conceito de pobreza da EAPN Portugal.


Recorde-se que de acordo com os dados do Plano de Desenvolvimento Social do Algarve [PDSA], apresentado no Teatro das Figuras, em Faro, a 11 de Dezembro de 2023, “o Algarve é a região do continente que apresenta a mais elevada taxa de privação material e o maior risco de pobreza após as transferências sociais (18,6%)”. Um risco de pobreza que atinge, sobretudo, famílias monoparentais e famílias com três e mais crianças, o que faz das crianças residentes na região um grupo particularmente vulnerável. A região tem cerca de 11 mil crianças e jovens em risco de pobreza extrema, sendo que a população residente em risco de pobreza apresenta valores superiores à média do país. No Algarve são 24,5%, muito acima do valor nacional de 19,4%. Mas onde estão estas pessoas em pobreza extrema que durante o tempo estival ninguém parece [querer] dar por elas? Muitas estão a trabalhar [algumas ainda sem idade permitida por lei] doze ou mais horas por dia, acumulando empregos precários. Pode ler mais sobre estes dados aqui.