Poderá o «Poeta à Solta» de Agostinho da Silva ganhar vida com a Inteligência Artificial?

16 Outubro 2025
Será a Inteligência Artificial (IA) uma ponte de acesso e diálogo com o pensamento de Agostinho da Silva? O filósofo português - que se definia, antes de mais, como um paradoxo - foi para mim a figura central e lúcida num discorrer de pensamento que desejo que  seja amparo neste difícil equilíbrio entre IA e humanismo. Ao participar numa jornada, em Faro, no Algarve, que teve como título «Inteligência Artificial com alma: Humanismo na Era Digital», liguei-me, prontamente, na admiração que tenho pela inteligência assoberbante de Agostinho da Silva que, instintivamente, conciliou sempre os opostos, como se de um princípio fundamental se tratasse. Apesar da enorme exposição pública que chegou a ter, Agostinho da Silva foi difícil de decifrar, parecendo um ser humano encriptado. Para a maioria de nós entrou diretamente na esfera do magnífico e do imaginário. O seu super poder terá sido viajar no tempo e transportar-nos em segurança numa vaivém alucinante de realidade. Se eu não tivesse querido entendê-lo e, continuamente, o não quisesse decifrar, tudo hoje me poderia parecer novo, extemporâneo, desligado, avulso e misterioso. Mas não é. É espaço de liberdade para pensar, ter espírito crítico e cautela; palavra esta que traz consigo sempre uma dose generosa de bom senso.
A jornada em Faro, inseriu-se no X Encontro «Partilhar Leituras», numa parceria entre a Rede de Bibliotecas Escolares, a Biblioteca Municipal de Faro, a Biblioteca da Universidade do Algarve, a Biblioteca Municipal de Olhão e o Centro de Formação Ria Formosa. Tal como foi anunciado, o programa destacou-se pela qualidade científica e prática dos oradores: a conferência inaugural esteve a cargo de Tiago Pinto (UTAD) sobre a IA como fator potenciador da humanização, seguida de um painel com investigadores como Nélson Zagalo (Universidade de Aveiro) e Paulo Carrasco (Universidade do Algarve), que exploraram os vínculos entre humanismo e tecnologia. Na conferência da tarde, o artista Eliseu Silva levou-nos à disrupção da IA nas artes.
Desde logo, Tiago Pinto - entre outras inúmeras questões e prismas de uma realidade global, que nos questiona, diária e invariavelmente - falou-nos também da vantagem de como a Inteligência Artificial nos pode ajudar a libertar de inúmeras tarefas que nos prendem à obrigação (e, diria eu: ao aborrecimento, ao marasmo, à mediocridade e à desmotivação). Agostinho da Silva referia inúmeras vezes que chegaria o dia em que as máquinas iriam executar muitas das tarefas que nos impediam de "ser o tal poeta à solta". A convição plena de Agostinho da Silva fazia antever, percebo hoje, máquinas altamente competentes e eficazes. Mas será esta minha ponte entre uma coisa e outra apenas um laivo de criatividade humana - se quisermos, em muito semelhante a uma alucinação de IA?! Acredito que não, pois tudo o que o investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro ia dizendo fazia em mim uma ligação saudável à força do pensamento de Agostinho da Silva.  Será desta que nos tornaremos o «tal poeta à solta» que Agostinho acreditava que tínhamos nascido para ser? «O Homem não nasceu para trabalhar, o Homem nasceu para criar. Para ser o tal poeta à solta». Mas para sermos esse «poeta=produtor à solta=livre» que ambiciona cumprir-se enquanto Ser precisamos do tempo útil de vida para isso e não estarmos, permanentemente, ocupados com tarefas que em nada acrescentam em valor e satisfação. Estaremos no caminho para essa liberdade e espaço? Saberemos fazer bem esse caminho de liberdade? E no campo da Educação, traduzirão os «Tutores IA Adaptativos» a ideia de uma escola aberta 24 horas por dia como defendia, também, Agostinho da Silva? Dizia este pensador que as escolas deveriam estar sempre abertas para «que quando o menino quisesse aprender algo pudesse fazê-lo, fosse a que horas fosse». Poderá ser por aqui? Tiago Pinto, referiu o potencial destes tutores de IA que possibilitam "devolver tempo à relação pedagógica". Ou seja,  "para os professores serem mais psicólogos e menos debitadores de matéria". Estiveram no auditório da Biblioteca Municipal de Faro muitos professores e educadores, para além de inúmeros bibliotecários. Todas estas inovações cruzaram-se com muitas dúvidas, reticências e espaços ao longo do dia para o debate e a reflexão. Foi aqui que entraram também as inúmeras questões abordadas na jornada pelos diferentes conferencistas. A ética, o pensamento, a educação mais justa, a imaginação, a empatia, o equilíbrio entre inovação tecnológica e humanismo, a meta-análise, o espírito crítico, a transparência, a responsabilidade, a privacidade, a não-discriminação, a regulamentação. Muito veio à tona de água e muito poderá ainda estar submerso. E por falar em água: mostrou-se notória a necessidade de abordar a IA desde o ponto de vista do impacto climático. Cada uma destas premissas merece uma musculada reflexão coletiva.
Entretanto, neste lugar de escrita solitária, esperando os bondosos olhares atentos e críticos, fico-me com autênticos mantras lançados para o Universo nesse dia pelo maestro Eliseu Silva. Disse ele - que esteve connosco em Faro graças à inovação tecnológica que o permitiu estar online a partir do Brasil - «Humanizar a tecnologia é o novo desafio civilizacional», contando que «a IA processa sons e a Inteligência Humana escuta silêncios». Os mantras têm essa a capacidade de nos lançar (à solta!) em saltos quânticos pela existência. Espalhemos a notícia!

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