

No ano de 1971, Jaime da Costa Lopes tinha 25 anos e estava em África onde se encontrava ao serviço do Comando-chefe das Forças Armadas na antiga colónia portuguesa da Guiné-Bissau. Na capital, cidade de Bissau, passava os dias a executar as suas funções a partir do quartel da Amura. Mas (há sempre um mas!) um certo fim-de-semana foi chamado ao palácio do Governador António de Spínola. Não imaginava que viria a ser recebido naquele dia pelo próprio general e, por isso, avançou para o palácio com a farda dos dias comuns de serviço em que o corpete e os calções se mostravam bem mais confortáveis para enfrentar o calor daquelas terras quentes. Quando chegou à residência oficial do governador foi recebido pelo próprio Spínola, e perante este, sentiu-se envergonhado pelo ar mais informal que envergava e pediu "desculpa por não estar a usar a sua farda de gala". António de Spínola, por detrás do seu famoso monóculo - que lhe conferia um ar enigmático - deu ordens ao jovem militar para que datilografasse um "documento". Acatando, Jaime C. Lopes recebeu o "tal documento" e iniciou a sua nova tarefa em terras bissaenses. Para tal foi-lhe disponibilizada uma máquina de escrever «de ponta» para que desses azo à sua destreza com os dedos nas teclas que conhecia de cor.


Não foi necessário «bater à máquina» muitas das folhas manuscritas para que Jaime entendesse o elevado grau de secretismo em que um documento daquela natureza teria de estar preservado até que fosse a hora certa de o publicar. No total, o jovem militar apenas precisou de mês e meio para dar mais corpo ao livro que passava assim de um manuscrito para um conjunto de folhas encadeadas por um pensamento novo e de motriz de mudança que viria a ser empurrão para a força revolucionária dos capitães de Abril.
Recordemos que o livro «Portugal e o Futuro» traçava para as antigas colónias ultramarinas uma solução política de estilo federalista, o que destoava totalmente da visão militar que caracterizava a ditadura de Marcelo Caetano. O livro escrito pelo general mais prestigiado, mais conhecido e mais poderoso daquele tempo exprimia a ideia de que a guerra colonial estava perdida o que ia totalmente de encontro a um Portugal cansado da guerra em África, para onde iam matar e morrer milhares de jovens militares portugueses.Segundo a investigação encetada por Pedro Marquês de Sousa, doutorado em História pela Universidade Nova de Lisboa, e tenente-coronel do Exército português terão morrido na guerra colonial ultramarina cerca de 10 mil militares portugueses e 45 mil civis e agentes de movimentos independentistas.


A publicação do livro «Portugal e Futuro» a 22 de Fevereiro de 1974 escapou ao crivo da censura e valeu a demissão de Spínola e deu o arranque definitivo ao Movimento das Forças Armadas (MFA) que levaram a cabo a «Revolução dos Cravos». Esgota cinco edições em apenas dois meses e tem eco na imprensa internacional. Para muitos, torna-se a bíblia dos militares hesitantes, bem como a bíblia dos militares capitães.


Jaime da C. Lopes é poeta em vésperas de publicar o seu oitavo livro. Recorda que começou a publicar há cerca de 30 anos e muito pelo estímulo dado pelo seu vizinho; o professor, ensaísta, jornalista e combatente anti-fascista Alexandre Castanheira. Jaime C. Lopes tem raízes da serra do Açôr, terra que teve de abandonar para rumar até em Lisboa onde aos 16 anos ingressou na Marinha Portuguesa. A sua poesia fala-nos da terra, da pastorícia, da família, do amor e, claro está, do tanto mar que conheceu. Convido-vos a ouvir esta entrevista que começa e termina com a história verdadeira de quem teve a "grande honra" de datilografar o livro «Portugal e o Futuro» de António Spínola, mas onde em permeio temos uma história de sensibilidade e mundo. No sofá da sua casa, onde realizámos esta entrevista, mostra-nos como a experiência nos ensina a não ficarmos colados às histórias e às glórias, mas sim a valorizarmos a vida que a vida nos permite viver. É o modelo redondo da existência humana que subsiste entre ciclos.
Nota da autora: «Esta entrevista acontece hoje porque teria eu pouco mais de 10 anos quando ouvi pela primeira vez Jaime da Costa Lopes – meu tio com quem vivi 14 anos – contar, certamente por altura de mais uma celebração do nosso «25 de Abril», que tinha sido ele a datilografar o livro de António de Spínola «Portugal e o Futuro». Uma imagem que me acompanhou sempre o imaginário de Abril e de todo o processo revolucionário. Ao comemorarmos os 50 anos da «Revolução dos Cravos» não poderia ter melhor forma de trazer esta história à estampa e celebrar uma data tão importante!»