



Nunca será possível afogar as mágoas das pessoas que foram realojadas numa aldeia no concelho de Mourão, Alentejo, criada de raiz e que da original, verdadeiramente, pouco trouxe para além do nome «Luz». Debaixo de água ficou quase tudo o resto e que não ser recupera. Apenas se avista quando o caudal da barragem baixa fruto de tempos de maior seca. Há quem se regule por umas amendoeiras centenárias para se localizar na aldeia antiga e há quem consiga ainda recuperar um ou outro azulejo da casa da família. Pequenos consolos que vão servindo de paleativo para aguentar o sofrimento causado pelo trauma de ver a sua aldeia afundada para dar lugar a uma barragem. Para além das casas, construiu-se a igreja, a escola e até o cemitério que acolheu os restos mortais que também foram transferidos, tendo sido este um processo muito sofrido por todas as pessoas.
Não existem dúvidas na comunidade em considerar que a população não foi devidamente ouvida em todo o longo processo da construção da «nova» Aldeia da Luz. Se por ventura houve uma alegria inicial no caso de quem viu a sua casa nova oferecer um conforto que a antiga não conseguia oferecer, essa sensação esfumou-se com o passar dos anos porque não foi possível à esmagadora maioria das pessoas adaptar-se ao processo de mudança. Cada vez mais despovoada, a comunidade da Luz, que em 2002 quando foi inaugurada tinha pouco mais do que 300 habitantes, é hoje lugar deserto. Os quintais empurrados para as traseiras das casas são autênticos muros altos erguidos para impedir a comunicação. Há quem assegure que só em dias de festa é que as pessoas se encontram na rua, tal é o desencontro vivido neste lugar pequeno onde o tempo passa devagar. Ao contactarmos com quem ali mora e assistiu a todo o processo de transformação, encontrámos solidão, tristeza, nostalgia e amor que lamenta esta terra silenciada e onde os jovens não podem regressar ainda que quisessem. Mas também escutámos pedidos de ajuda e ideias para o futuro. É o testemunho de quem ao falar sobre tudo isto, verdadeiramente, chora aos nossos ouvidos: