E quando é o palco que te mostra a história verdadeira!?

09 Dezembro 2024

"(...) Que impacto pode ter olharmos no palco para personagens que nos contam sobre a história verdadeira, quando do outro lado estamos na plateia que engrossa a fileira de uma sociedade esconsa? (...)"

No outro dia fui ao IPDJ [Instituto Português do Desporto e da Juventude], em Faro, ver a peça «A Minha Casa é a A2», da companhia artística «Lama Teatro», de Faro. Fui com a família, sem antes deixar de responder (incessantemente) às questões dos mais novos sobre a importância de ir, da necessidade de ir, e ainda sobre a minha garantia irrevogável de que valeria a pena ir... De Castro Marim a Faro são cerca de 60 minutos de caminho. A estrada que utilizo ainda não é a A22 - apenas será quando não me cravarem mais portagens. Desculpem lá, mas «cravar» é o termo mais suave e, ainda assim, sonoro que encontro para o ato de me pedirem dinheiro para andar nesta autoestrada; num Algarve [também conhecido como o melhor destino de praia ou do mundo] tão pobre em mobilidade. Saímos em cima da hora quando percebemos que, afinal, depois dos compromissos laborais de sábado conseguíamos ir. Sem pré-aviso, anunciei, então, que íamos ao teatro, afirmei que ia ser giro, expliquei mais ou menos a sinopse, que não dominava por completo, e pedi que se despachassem como exigia o pouco tempo que tínhamos. Arrancámos (e arranquei-os!) e lá seguimos pela EN125 fora.
Chegados, cada um de nós com o seu olhar entrou no auditório e cada um de nós disponibilizou-se a fruir o que viria do palco. Assistimos a uma peça que não encarei como uma autobiografia, mas sim um convite para fazermos retrospetivas. A do protagonista e a nossa. O João de Brito tem 20 anos de carreira e com o sucesso necessário que lhe permite andar «para trás e para a frente» na estrada a dar resposta aos vários desafios. De Faro a Lisboa tem a A2 que conhece de cor. Esse conhecimento permite-lhe aproveitar a viagem para arrumar a vida que fica a meio caminho. Ou seja, preparar espetáculos, despachar agenda, comer, beber, ouvir música, cantar, (chorar não vi, mas acredito que aconteça), questionar uma tia sobre o melhor método de retirar nódoas amarelas de roupa branca, anunciar aos amigos que «vai à terra», antecipar os abraços com a mãe...
Fiquei com a sensação que os 20 anos de carreira deste artista podem ser, se olharmos com densidade para a vida, os nossos dois minutos ou os nossos dois anos de qualquer coisa. Podem ser os nosso nano-momentos.. Podem ser o nosso imaginário alicerçado do saber de experiência feito. «A Minha Casa é a A2» ativou em mim muitos pensamentos que se foram desenrolando no regresso a casa. A narrativa que se me fluiu nesse pós-espetáculo tem que ver com a noção do amor incondicional em relação a algo que se faz. Parece simples, mas não é. Amar incondicionalmente o que se faz é um privilégio. Depois desta certeza surge a pergunta. E quantos podemos ser privilegiados a esse nível? Amar o que se faz requer também muitas vezes uma dose de sacrifício gigante. Depois desta convição surge-me a questão. E quantos nos submetemos a isso sem medo de abandonar zonas de conforto? Amar o que se faz é ter a capacidade de esperar o tempo certo para agarrar as oportunidades. Depois desta ideia mais-ou-menos utópica surge-me a interrogação. E quantos de nós somos ensinados a esperar e confiar que esse momento vai chegar? Ler a frase «Amar o que se faz» pode ser substancialmente diferente «Fazer o que se ama». Eu creio que a primeira pode ser mais inclusiva, mais ampla, que a segunda.
Dei por mim a fazer uma retrospetiva sobre o que há-de vir e a pensar nas pessoas que vou encontrando no caminho e com as quais nem sempre é fácil falar sobre todas as amplitudes da nossa existência. O pensamento rápido e misturado no momento, rapidamente, levou-me à reflexão sobre os mais novos. A quem nós, na ânsia de querer proteger e ao mesmo tempo munir de todas as ferramentas para enfrentar o futuro (que desejamos sempre que seja melhor do que o passado) damos pré-avisos sem prazo de validade. E, ao olhar para trás, dei por mim a pensar nas dificuldades que um dia pensávamos expiradas. Perpetua-se a pobreza, renovam-se as guerras, adensam-se os perigos das alterações climáticas, subtraem-se os empregos de sonho, aumenta o custo de vida. E também há retrocesso dos nossos direitos, há a bolha, há as redes sociais, há a indiferença.
No entremeio, tal como na autoestrada do João, há uma vida às voltas. Que impacto pode ter olharmos no palco para personagens que nos contam sobre a história verdadeira, quando do outro lado estamos na plateia que engrossa a fileira de uma sociedade esconsa? Só com os olhos fixos na luz do plateau conseguimos ter a noção do possível para além do impossível, da diferença para além da indiferença, da verdade para além da ilusão. Entretanto, a nossa alma está a saldos num lugar cada vez mais profundo, mas onde, valha-nos isso (pensamos nós...), somos todos bonitos e fortes.

 

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